Entre os obstáculos que enfrentamos, temos que registrar aqui o mês em que você ficou na escolinha em período integral. A Naiane estava se atrasando e faltando mais do que o normal e isso estava nos trazendo problemas no trabalho. Quando ela faltava, deixávamos você o dia todo na escolinha e era sempre bastante tranquilo. Você adora a escolinha e ficava numa boa. Então, achamos que colocá-la em período integral, dispensando a Naiane, seria uma boa solução.
Mas não foi. Você não se adaptou. Resistia a levantar da cama, chorava e, algumas vezes, até gritava muito enquanto te arrumávamos de manhã. Era uma confusão terrível.
No meio do seu protesto – e atrasados para o trabalho – eu e o papai muitas vezes não sabíamos como agir. Mas agíamos, mesmo sem saber. E nesse contexto aflitivo e angustiante, erramos e acertamos. Sabíamos que ali, naquele momento, tínhamos que: impor limites, te acalmar, dar um fim na situação ... ou, quando nada disso dava certo, tínhamos que, pelo menos, conseguir sair de casa e começar o dia – já bastante atrasados e atordoados. Em algumas vezes nos frustramos, em outras, perdemos a calma. Mas passou.
Até hoje, não sei dizer se por trás desse comportamento estava a escolinha em período integral, se foram birras normais (que eu poderia ter encarado de outra forma se estivesse mais fortalecida e menos estressada), ou se você, sempre tão sensível, estava absorvendo o estresse da mamãe e do papai, fruto da rotina tão massacrante da época.
O fato é que, hoje, já não penso nas razões do que aconteceu naquele setembro... Hoje vejo você como um anjo que, por caminhos pouco compreensíveis na época, me fez tomar uma das decisões mais acertadas da minha vida: pedi demissão em outubro e abri uma empresa de consultoria (chamada Travessia Comunicação Social e Relacionamento Comunitário). Desde então, fico com você pela manhã e trabalho à tarde, de casa, enquanto você está na escolinha.
Um dia, nas primeiras semanas dessa nova fase, você virou-se para mim, no meio de uma brincadeira qualquer, e me agradeceu por eu estar ficando em casa com você. Não há nenhum exagero nessa frase. Foi exatamente assim. Aliás, ainda falta uma informação: esse seu agradecimento veio seguido de um abraço muito carinhoso e de um choro meu, que lavou a alma.
Filha, sou eu que tenho que te agradecer: muito, mas muito obrigada por ter me ajudado a fazer essa travessia - que tem feito tão bem a nossa familinha. Você abriu a cortina que esconde de nós o que realmente importa. Ouvimos muito por aí que a vida é curta, que devemos saber a que devemos dar valor, mas você me ajudou a realizar tudo isso... a entender essas frases com a alma e o coração. E, principalmente, me deu coragem para sair do automático. Sem medos.
Nunca fui muito ambiciosa, nem workaholic e, se tem uma culpa que não levo é a de ter te dado pouca atenção e presença. A relação que nossa família teve com a babá/escolinha sempre foi muito equilibrada. Mas eu sentia que, mais do que a minha presença, você merecia e estava precisando é da minha paz, essa que estou encontrando aqui, do lado de cá dessa travessia.
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